top of page

Beda #15 - A melhor voz

Atualizado: 15 de ago. de 2022

Boa noite!


Hoje, queria contar algo que acontece este ano. Algo que mexeu comigo de uma forma que imagino ser irreversível.


Existe uma matéria na minha grade curricular chamada “´Projetos em Bioquímica”. Ela consiste basicamente em elaborar um projeto de pesquisa sobre qualquer coisa na área da biologia e, ao longo do semestre, realizar os experimentos para que seja os resultados sejam apresentados ao fim.


É uma ideia excelente. Absolutamente fascinante. Lembro de passar as primeiras aulas animadíssimo imaginando quais projetos poderiam ser feitos. Seria meu primeiro contato ( de certa forma) independente com a pesquisa científica que tanto amo. Uma primeira prova daquilo que eu pretendo fazer para o resto da vida. Elaborar e desenvolver pesquisa.


Claro que as coisas não deram super certo. Já começaram dando errado, na verdade. A professora, apressada demais e bem displicente, era praticamente incomunicável. Em uma ocasião, inclusive, perguntamos a ela “Podemos conversar com a senhora depois da aula?”; e ela respondeu: “Não. Por quê?”. Essa postura já prejudicou logo o início do trabalho de muita gente. Inclusive do meu.


Logo na segunda aula, ela nos levou aos laboratórios onde seriam realizadas as atividades. Chegando lá, sentamos sem pensar muito a respeito. Ela logo ordena que os grupos sejam selecionados e, em uma pressa absoluta, escolhe a mim e as pessoas que sentaram aleatoriamente ao redor como um dos grupos.


Nós não nos conhecíamos. Era literalmente a primeira ocasião em que sentávamos juntos em todo o curso. Aliás, era o primeiro semestre presencial depois de praticamente dois anos sofridos em EAD.


Grupo montado. Fim de papo.


Eu, em uma tentativa meio esperançosa de fazer o melhor da situação, tentei tomar as rédeas. Organizei um grupo no whatsapp para que pudéssemos decidir o tema do trabalho e outros detalhes.


Enfim, depois de um tempo teve a aula para apresentar as ideias iniciais. Infelizmente passei mal no dia e não pude participar da decisão. Mas, no fim, tema decidido: “Eficiência do álcool em Gel”. Eu até poderia explicar o projeto aqui e as motivações mas, sinceramente, isso não importa nem um pouco.


Com o tema decidido, só nos faltava construir a metodologia.


Eu, ainda animado, assumi a responsabilidade. Fizemos uma reunião e decidimos algumas ideias. No dia seguinte, passei um bom tempo deixando tudo bonitinho. Separei ideia por ideia, da forma mais profissional que poderia fazer.


Apresentei para o grupo e todos concordaram.


Chega o dia de apresentar a metodologia que escolhemos para a professora. Como do feitio dela, me acelerou e, antes que eu terminasse de explicar, disse algo do tipo “Ah, entendi, beleza”.


Logo em seguida, depois de uma piadinha feita pela técnica de laboratório sobre estarmos realmente preparados para o trabalho que nossa ideia daria, todo mundo deu para trás. De repente, a ideia era ruim. De repente, tudo o que eu tinha passado horas fazendo com o aval deles era inadequado. Não culpo ninguém, claro. Estava todo mundo assustado e aquela brincadeira (que ela fez com todo mundo) foi o fósforo que acendeu a palha de cada um.

Depois de horas e horas discutindo eu pensei comigo mesmo “Ok, eu simplesmente estou sendo inconveniente. Eu estou travando o grupo. Eu estou sendo a pedra no caminho”. Obviamente, pela minha natureza, dei o pé atrás. Ainda discordava, claro. Mas o trabalho é em grupo, o que posso fazer? Se a maioria quer, a maioria terá. Eu genuinamente acredito nisso e até comentei uns textos atrás que se tem um tema pelo qual sou radical é a democracia.


Fiquei muito mal. Me senti desrespeitado, por assim dizer. Em especial por uma frase que ouvi na discussão: “Nem metodologia nós temos!”. Quando essas palavras entraram nos meus ouvidos eu me senti um verdadeiro palhaço. Tudo o que eu tinha feito realmente não era nada.


Aquilo me marcou.


Eu adotei uma postura meio amargurada desde então. O que não é nem um pouco do meio feitio. Algo em mim dizia “Já é hora de você se impor”. E eu tentei me impor. Eu tinha medo de que, o que agora era apenas um trabalho, eventualmente poderia ser uma vaga de emprego ou uma outra oportunidade incrível que deixaria passar pela minha falta de combatividade.


Já era hora de mudar. Já era hora de mostrar que o que eu faço é bom e melhor! Já era hora de confiar em mim mesmo!


Não era só meus pensamentos que diziam isso...


Eu desabafava com meus pais, alguns amigos e minha namorada. As respostas eram invariáveis. Sempre algo que reforçasse essa minha necessidade de me impor. Ouvia soluções de todos os tipos e conselhos de o que falar, o que fazer e como reagir a todo tipo de evento que poderia ocorrer.


E assim fiz. Relutante, mas fiz. Não gostava de fazer, mas tinha que ser feito.


Me distanciei e tentei fazer que não fosse problema meu. Não respondia às mensagens, enrolava, saía mais cedo - assim como eu via os outros fazendo. O trabalho foi se destruindo e destruindo até que chegou num ponto em que era praticamente nada. Tudo o que deveríamos ter feito em 4 meses teria que ser feito em duas semanas.


O clima era estranho. Alguns se davam melhor que os outros, mas havia, sem dúvida, uma animosidade onipresente.


Um dia, recebi uma mensagem no grupo que me irritou profundamente. Era uma das meninas falando que “achava bom que quem não tivesse participado presencialmente estivesse fazendo a parte escrita, pois não colocaria nome de quem não ajudou no projeto final”. Fiquei furioso e respondi.


O que não é do meu feitio, mas eu precisava me impor.


“Eu espero que você não esteja falando de mim, porque estou fazendo a parte escrita sim!” - Respondi.


O que eu senti na hora? Depois de finalmente botar para fora e me impor?


Só Raiva.

A mesma raiva.


“Relaxa que não foi para você” - uma das meninas falou.


Me tranquilizei, mas sabia, no fundo, que se aquilo doeu em mim era por algum motivo. Havia alguma culpa dentro de mim que se sentiu afetada por aquele comentário. De fato, fiz a parte escrita praticamente inteira, movido justamente por essa raiva da hora. Mas aquilo não saia da minha cabeça...


Nos dias seguintes eu refleti profundamente sobre aquilo tudo. Por quê? Por que eu deveria me comportar daquela forma que não me trazia paz nenhuma e nunca trouxe? Por medo de algo acontecer um dia?


Não. Eu não sou assim.


E nunca vou ser. Eu não consigo.


E agora não quero.


Eu fiz questão de arrumar a minha ausência. Tirei a máscara que coloquei e fui convencido a manter. Corri atrás do prejuízo. Não, eu não participei da parte experimental, por isso a carapuça servira tão bem. Então, eu farei a apresentação final. Assumi mais ainda o compromisso com a parte escrita e terminei tudo. Nos juntamos com essa energia final e conseguimos resultados apresentáveis.


Uma aula antes da nossa apresentação, tive a oportunidade de conversar melhor com as meninas que mandaram mensagem antes. Havia um outro problema paralelo que também nos consumia, então, ao falar a respeito, levantei o ocorrido. Exatamente assim:


“Pois é, eu inclusive respondi aquela sua mensagem porque a carapuçazinha serviu bem demais kkkkk.”


Demos uma risadinha e ela disse “Gente, eu não tenho filtro nenhum, desculpa qualquer coisa”. Eu imediatamente respondi: “Que isso! Relaxa, tem que falar mesmo. Eu peço desculpas também pela grosseria. Esse trabalho mexeu com todo mundo”


O que eu senti na hora? Depois de “dar o braço a torcer” àqueles que me desrespeitaram?

Paz

Uma paz tão grande que me arrepio ao escrever essas palavras


Parecia que tinham tirado das minhas costas um peso imenso. Parecia das costas mas o peso foi tirado do rosto mesmo. Foi o peso da máscara de algo que não sou e tentava me forçar a ser.


Desde então, tudo ocorreu super bem. Ensaiamos a apresentação e levantamos várias sugestões e notas. Sentávamos juntos nas aulas da matéria e conversávamos e brincávamos.


No fim, apresentei o trabalho e saiu tudo bem.


No início do ano eu achei que essa seria minha história de mudança. Achei que essa seria a história que contaria aos meus filhos sobre como “a vida vai te moldando”. Eu não podia estar mais enganado.


Essa história me ensinou algo sagrado. Me ensinou que, se não souber a quem ouvir, ouvirei o mais simples:


O meu coração.


Até amanhã!


-Pedro Marzano

🌹


 
 
 

1 comentário


lananeto
18 de ago. de 2022

Será que o meu comentário deste dia não foi? Hoje foi o unico dia em que vi a minha mensagem, la no Beda 17

Curtir
Post: Blog2 Post
bottom of page