Beda #6 - Sono
- Pedro Marzano

- 6 de ago. de 2022
- 3 min de leitura
Boa noite!
Como estão?
Depois de dois dias mais truculentos, sem conseguir postar direito, finalmente posso sentar na minha cadeirinha, do jeito que gosto, e escrever tranquilo.
Hoje foi um dia ainda corrido, principalmente no início, mas consegui descansar um pouquinho. Tirei um cochilo de tarde que, mesmo curtinho, acabou me ajudando.
Eu acho o sono algo bonito. Não o sono propriamente dito. O ato de precisarmos dormir.
Por muito tempo pensou-se que o sono era algum tipo de descanso para o cérebro (aliás, o consenso ainda é esse). O ato de dormir seria como dar um certo tempo para o que nós entendemos como a “máquina operadora” pudesse repousar. Quase que um ultimato da gelatina que mora dentro do nosso crânio.
Ano passado as coisas parecem ter mudado um pouco.
Se pensarmos que o sono é algo para o cérebro, é de se esperar que seres vivos menos complexos que nós durmam cada vez menos. Elefantes dormem? Claro! E tigres, gazelas?
Também.
Ok, eles não são tão espertos quanto nós, mas ainda tem muita coisa passando pelo cérebro deles.
Mas e se caminharmos um pouco mais para a origem da vida? Cada vez chegando a organismos mais e mais distantes de nós humanos.
Aves? Dormem também.
Répteis? Sem dúvida.
Anfíbios? Provavelmente, né?
E peixes? ... Acho que sim
Insetos? Ah, talvez.
...
Sem dúvida o sistema nervoso simplifica conforme voltamos no tempo. Até chegar no ponto em que conceitos como “cérebro” e “nervos” nem se aplicam mais aos organismos em questão. E aí? Eles dormem?
Ao que tudo indica: sim.
Ano passado, alguns cientistas perceberam que hidras - um bicho que nem parece bicho- apresentam ciclo de metabolismo bem parecido com o sono. Há um certo ritmo que acelera e diminui conforme o tempo passa. Elas provavelmente dormem. Assim como nós.
Ao que tudo indica, o sono é metabólico, não cerebral.

Eu entendo como isso parece bobo, mas mexe comigo por algum motivo.
É comum vermos essa coisa de que “nós somos nosso cérebro” ou “somos apenas uma gelatina dentro de uma caixa óssea”.
Mas, mesmo sem essa tal gelatina, esses bichos dormem. Mesmo sem essa tal gelatina, esses bichos comem. Mesmo sem essa tal gelatina, esses bichos fogem do perigo. Esses bichos se reproduzem. Esses bichos vivem.
“Eu achava que eu era feliz, mas feliz eu sou agora”
Essas palavras foram ditas por um criador de conteúdo que acompanho nessa quinta feira. O contexto? Ele anunciava que seria pai.
Ele refletia sobre como parece haver uma certa plenitude quando o que parece ser o objetivo principal da vida é alcançado: prosseguir com a vida. Ele repetia e repetia “como a natureza é louca”.
O sono só me lembra isso.
Nós, humanos, presenteados ou amaldiçoados com a consciência, parecemos buscar uma certa ascensão. Tentamos entender esse algo a mais que nos foi dado. Sem nem perceber, desprezamos nossa carne e vísceras entendendo-a como “veículo”; meio que transporta o nosso verdadeiro eu.
Devemos ser algo a mais. Sem dúvida somos algo preso a essa fortaleza orgânica. Almejamos a liberdade. Planejamos trocar esse veículo eventualmente. Queremos trocar os nervos por fios; a cartilagem por borracha; os músculos por metal. Não é possível que sejamos só isso.
Precisamos buscar o resto.
Nos enxergamos como prisioneiros que, de repente, viram uma rachadura por onde o sol pode brilhar pelas paredes de carne. Nos sentimos injustiçados. Como se provocados por essa luz a lutar em vão por uma liberdade que parece impossível.
Mas nós dormimos. Nós comemos, bebemos e nos reproduzimos.
Nós dormimos.
Assim como as hidras.
O corpo não dorme porque manda o cérebro. O cérebro dorme porque manda o corpo.
Nós não somos uma gelatina presa em uma caixa de osso. Nós somos um saco de carne e osso com uma gelatina dentro. Um saco de carne e osso que come, bebe, dorme; e sente.
Um saco capaz de abandonar o automático orgânico e entendê-lo como prazeroso. Um saco que, mais do que come, cozinha. Mais do que bebe, se refresca. Mais do que se reproduz: ama.
Nós já ascendemos.
“mas feliz eu sou agora”
Isso não é prisão. Isso é liberdade.
Até amanhã.
-Pedro Marzano




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